| |
|
|
| |
 |
|
| |
Luciano Guimarães, Romeu
Duarte Júnior, Fábio Penteado, Fayet e Bete França, na casa de praia
de Fayet em Celso Ramos - SC. |
|
| |
Despedida de FAYET
Rossana Honorato
Em meados de janeiro passado, o meu telefone celular registrava uma
ligação não atendida. A incompleta renovação da agenda telefônica do
novo
aparelho não me permitiu o imediato reconhecimento do número, apenas de
sua
procedência: 51 - Porto Alegre... Fayet?
Como de hábito, retornei a ligação. A voz,
inconfundível, esclareceu-me:
_ Ô Rossana, como andas, guria?
_ Ô, companheiro, que bons ventos o trazem a mim, respondi.
_ E aí, viraste ouvidora?...
Assim, começamos nossa conversa.
Questionava-me a decisão tomada ao
final de 2004, quando então convidada pelo Prefeito de João Pessoa para
coordenar
a estruturação e a implantação da Ouvidoria Municipal, trocara com ele
algumas
figurinhas, quisera a sua opinião.
_ Advinhas de onde te falo, um euforia entronava-lhe a voz.
_ ...
_ ... em minha casinha que tu conhecestes, aqui em Celso Ramos.
_ Uau, nessa bela casa, companheiro! Que me fazer inveja, é?
_ Bela casa é brincadeira tua, né? Não dá nem pra chamá-la de
arquitetura.
_ Guria, quase parti um dia desses, sabias...
_ Como é que foi isso, Fayet..., falei como quem não sabe o que dizer.
_ Tive um AVC e por pouco não fui. A coisa foi feia. Preciso descansar.
Quem
sabe eu não apareça por aí pra gente passear um pouco?... Tem um canto
aí onde
estirar um colchão?...
Minha amizade com Fayet iniciou-se com uma
cena banal: uma conta de táxi
por pouca teimosia minha não adequadamente dividida com ele e Irineu
Breitman.
Reunião do COSU em Salvador, paralela ao Congresso Internacional de
Pedras e
Rochas Ornamentais, festa de comemoração dos 40 anos do IAB-BA se a
memória
me ajuda. A minha resistência à gentileza marcou nosso contato e, por
vezes, várias,
serviu-nos a risonhas lembranças comuns.
Mas já era janeiro e Fayet quis
despedir-se...
Ao telefonema, como todo direito, fez-me a
cobrança devida: a espera de
meu retorno ao documento que editou do processo de restauração e
recuperação
do cinqüentenário edifício do Palácio da Justiça de Porto Alegre,
projeto arquitetônico
de sua autoria, que me surpreendeu figurando-se, certo dia de abril de
2006, entre
minhas correspondências. |
|
| |
 |
|
| |
Fayet em ação no projeto e
execução dos murais, para o restauro do Palácio da Justiça de Porto
Alegre. |
|
| |
Nem sei quantas vezes o belo documento
reteve o meu olhar tão sem atitude
sobre a mesa de meu computador. Nele, impressiona a paixão transbordante
com
que Fayet se dedicara de corpo e alma àquele trabalho, sobretudo para a
execução
dos murais e da escultura da deusa Themis, objetos concebidos pelo
projeto original e
não antes executados.
|
|
| |
 |
|
| |
O Palácio da Justiça e a escultura da filha
de Gaia e Urano. De olhos bem abertos, Themis assim foi considerada a
deusa da Justiça (à direita, em destaque, já fixada no edifício). |
|
| |
Eu me planejava... ora, com aqueles planos
que sequer pensam a vida que
um dia se acaba. Dedicar-lhe-ia alguma palavrinha.
Antes tivesse tomado-a ao telefone e me penitenciado por conjeturar o
empenho de uma palavrinha a tão importante registro. Não se trata de
documento aque se possa dedicar-se um reles comentário. A carência de
tempo livre e uma
inconsciente constatação, de que pouco me exigia, talvez tenham sido a
razão para
a protelação.
O livro, modestamente reduzido aos folders,
foi lançado conjuntamente à
exposição pública dos desenhos e fotos para a execução dos murais e da
escultura
da deusa Themis do processo de restauro do Palácio da Justiça de Porto
Alegre. O
registro fotográfico de um fazer para a história da arquitetura
brasileira, para as ações
de recuperação de bens patrimoniais, que consagra o amor à obra do
arquiteto
Maximiliano. E que, talvez, o tenham feito sentir-se em sua última
jornada.
O tamanho da identidade de Fayet com a
Arquitetura e o Urbanismo já era
meu conhecido. Por incontáveis vezes, atinei para seus depoimentos nas
plenárias do
IAB, em que o empenho do Instituto para o controle de qualidade do
exercício
profissional no país era sempre o tema. As idéias trocadas seguidamente
entre olhares
de trinta e três anos de vidas diferentes rasgaram as plenárias do IAB e
levaram a
arquitetura ao dileto ambiente dos bon vivant, aonde dávamos acabamento
a
reflexões felizmente inacabáveis. Passos que rumaram à pista de dança. E
o prazer
comum da vivência da música conduziu a identidade à amizade entre quem
partilha
um bem com que, tão simplesmente, se pode revigorar a alma.
Sorte a dos arquitetos brasileiros ter entre
eles aquele que tanto labutou pela
dignidade da profissão. Grande honra pessoal a minha. Incluída a de
servir-lhe a
tapioca paraibana em minha cozinha, que preparei sob a minuciosa atenção
do
arquiteto, quando me visitou na companhia da namorada Helena.
Charmoso Fayet!
A pouca convivência física, entretanto, não
se perdeu em densidade, mas raras vezes ele não me apresentou a uma nova
namorada. Com Fayet também aprendi a degustar os vinhos, até o tempo em
que a vida tomou-lhe esse direito. Numa
delas uma declaração insólita: sou um homem afetivamente ativo;
entusiasmado
talvez pela curiosidade da parceira.
De modo que entre nós a arquitetura que
produziu pareceu subjugada pelo
magnetismo da vida. As tantas cidades brasileiras mais serviram de
objeto real, além
de pano de fundo de nossos debates. As mesmas que nos acolheram em
nossas
plenárias do IAB - talvez porque mais me incline, eu, à leitura da
cidade. Diálogos que
me relataram o militante, o fundador da luta dos arquitetos brasileiros
por um conselho
próprio de fiscalização da profissão, que ainda vai ver realizar-se.
A notícia inesperada me pegou como uma
música de Djavan: um trem
entrou no meu eu... Uma saudade imensa tomou conta de mim. Meu
companheiro
se despediu de nós. Para sempre o seu último telefonema, para sempre as
suas visões, nunca mais com ele um bailado.
É a vida!
E é bonita, é bonita e é bonita!
Viver êô, êô...
. Rossana Honorato é arquiteta
paraibana. Foi presidente do IAB-PB no período de 1993/1995 e, por
várias gestões, membro do Conselho Superior do IAB.
artigo
completo com mais imagens e notas - Fayet - Despedida de amiga.pdf |
|
| |
|
|
| |
DOCOMOMO Brasil
|
início da página
| voltar Fayet |
porta-retratos |
|
|